No século XX, a indústria conserveira de atum trouxe a São Jorge um dos períodos de maior prosperidade económica da sua história moderna. Duas unidades fabris transformavam o peixe capturado no Atlântico em conservas apreciadas em Portugal e no estrangeiro.
As duas fábricas
Existiram duas fábricas de conservas de atum na ilha:
- Uma junto ao Porto da Calheta, na excelente baía que abriga a vila — o edifício industrial ainda é visível na costa sul e está entre os testemunhos mais eloquentes desta época.
- Outra na Fajã Grande, na costa oriental do concelho da Calheta, onde a proximidade do mar facilitava o desembarque do pescado.
Do barco à lata
O atum chegava aos portos de Calheta e da Fajã Grande nos barcos da frota. Nas fábricas, mulheres e homens trabalhavam em linhas de produção: limpeza, corte, cozedura, enlatamento e embalagem. O cheiro do atum fresco e do azeite impregnava a baía durante os meses de campanha.
A actividade criou emprego estável numa ilha historicamente marcada pelo isolamento e pela dependência da agricultura e da pecuária. Famílias inteiras viveram do salário das conservas durante décadas.
O declínio
Com a queda das quantidades de atum no Atlântico Norte e as alterações na economia pesqueira internacional, a actividade das fábricas foi suspensa. A ilha perdeu um dos seus principais motores industriais, tal como outras comunidades açorianas ligadas ao mesmo ciclo — a transição narrada no documentário Da Baleia ao Atum (RTP Açores).
Legado
O edifício da antiga fábrica na baía da Calheta permanece como marco da paisagem urbana — símbolo de uma era em que São Jorge exportava para o mundo. A tradição conserveira açoriana continua noutras ilhas, mas em São Jorge a memória vive nos edifícios, nos aposentos dos antigos trabalhadores e na identidade de Calheta, cuja padroeira é Santa Catarina — a mesma invocação que nomeia algumas das conserveiras mais famosas do arquipélago.
Leia também: Pesca e o Mar · Baleeiros
